Idade dos Metais
Denomina-se Idade
dos Metais o período que seguiu à Idade da Pedra, marcado pelo início da
fabricação de ferramentas e armas de metal.
O ser humano
começava a dominar, ainda que de maneira rudimentar, a técnica da fundição. A
princípio, utilizou como matéria prima o cobre, o estanho e o bronze (uma liga
de estanho), metais cuja fusão é mais fácil.
Este período do
Neolítico começa antes do Quinto milênio a.C. e acabaria em cada lugar com a
entrada na História, para boa parte da Europa no Primeiro milênio a.C. É parte
da Pré-História na Europa, bem como na maior parte do mundo, exceto na
Mesopotâmia, que coincide com o desenvolvimento da escrita e portanto com a
História.2 Quando existem testemunhos escritos indiretos é considerada também
Proto-história. De qualquer forma, não existe uma ruptura (exceto arbitrária)
no desenvolvimento desta tecnologia metalúrgica entre a Pré-História, a Proto-história
e a História.
Nesse período, o
crescimento da população se acentuou em algumas regiões do planeta. As pequenas
comunidades foram se desenvolvendo. Algumas delas passaram a dominar grandes
extensões de terra e outros grupos. Surgiram, assim, as primeiras cidades,
principalmente no cruzamento de caminhos naturais. Algumas dariam origem às
mais significativas civilizações da história da humanidade.
Na Eurásia, a
Idade dos Metais subdivide-se tradicionalmente em Idade do Cobre, Idade do
Bronze e Idade do Ferro, fusionando-se ao final com os tempos históricos sem
solução de continuidade.
Ver também: Idade
do Cobre
O cobre, com o
ouro e a prata, foi um dos primeiros metais usados3 talvez porque, às vezes,
aparece em forma de pepitas de metal nativo.
O objeto de cobre
mais antigo conhecido é um pingente oval procedente de Shanidar (Irã), datado
por volta do Décimo milênio a.C. Contudo, esta peça é um caso isolado, pois não
foi até 3000 anos mais tarde que as peças de cobre martelado em frio começaram
a ser habituais. Em efeito, em vários sítios arqueológicos a partir de 6500
a.C. foram encontradas peças ornamentais e alfinetes de cobre manufaturado a
partir da martelagem em frio do metal nativo, tanto nos montes Zagros (Ali Kosh
em Irã), quanto no planalto da Anatólia (Çatal Hüyük, Çayönü ou Hacilar, na
atual Turquia).
Vários séculos
depois for descoberto que o cobre podia ser extraído de diversos minerais
(malaquita, calcopirita, etc.), por meio da fusão em fornos especiais, nos
quais se insuflava oxigênio (soprando por longos tubos ou com foles) para
superar os 1000 °C de temperatura. O objeto de cobre fundido mais antigo
conhecido procede dos montes Zagros, concretamente de Tal-i-Blis (Irã), e é
datado cerca de 4100 a.C.; junto a ele foram encontrados fornos de fundição,
crisóis e até mesmo moldes.
A técnica de
fundição do cobre é relativamente simples, contanto que os minerais usados
fossem carbonatos de cobre extraídos de alguma jazida metalífera; a chave está
em que o forno alcance a temperatura adequada, o qual se conseguia injetando ar
soprando ou com foles através de longos bocais. Este sistema é denominado
"redução do metal". O mineral triturado era misturado, por exemplo,
com malaquita (carbonato de cobre), com carvão de lenha. Com o calor as
impurezas vão liberando-se em forma de monóxido e dióxido de carbono, reduzindo
o mineral a um cobre relativamente puro; ao atingir 1000 °C, o metal
liquefaz-se, depositando-se na zona inferior do forno. Um orifício no fundo do
forno permite que o líquido candente fluía para o exterior, onde se recolhe em moldes;
parte da escória fica no forno e as impurezas do mineral aboiam no metal
fundido, sendo fácil eliminá-las.
Como o cobre
podia ser refundido, este costumava converter-se em lingotes, por vezes com uma
forma peculiar (como os do Mediterrâneo oriental, que lembram a pele de um
animal), para depois fabricar diversos objetos por fusão e colado em moldes. O
cobre é muito maleável e dúctil, podia martelar-se em frio ou em quente, com o
que se duplicava a sua consistência e dureza. De qualquer forma, resultava
impossível eliminar todas a impurezas do cobre, mas, enquanto algumas eram
prejudiciais, como o bismuto, que o faz quebradiço, outras eram benéficas, como
o arsênico, que reduz a formação de borbulhas na sua fundição, pois impede a
absorção de gases através dos poros do molde, assegurando um produto de melhor
qualidade. O cobre com alto conteúdo natural em chumbo é mais mole, o qual pode
ser uma vantagem para fabricar recipientes por meio da martelagem de uma
prancha em forma de disco, curvando-a em forma côncava, para elaborar caldeiras
ou tigelas; até mesmo podia ser repuxado. Alguns metalurgistas acreditam que
estes cobres com impurezas benéficas são, na realidade, "bronzes
naturais".
A técnica do
cobre não tardou em difundir-se por todo o Próximo Oriente, coincidindo com o
nascimento das primeiras civilizações históricas da zona, principalmente a
Suméria e o Antigo Egito; contudo, estudiosos acreditam que pôde ser inventado
em datas muito parecidas em outras partes do Velho Mundo. Concretamente na
Europa há um avançado núcleo calcolítico nos Balcãs que inclui ocasionalmente
objetos de cobre fundido entre os seus achados do Quarto milênio a.C. (cultura
Gulmenita) e parece ser uma invenção autóctone; embora este primeiro metal não
se difunda pela Europa central e mediterrânea até pouco depois do Terceiro
milênio a.C., por exemplo, ligada a povos megalíticos da península Ibérica,
como Los Millares ou Vila Nova4 ou, na Europa Central, com a cultura das
Cerâmicas cordadas. Houve zonas que ainda desconheciam o cobre fundido, mas um
novo povo encarregou-se da sua definitiva difusão europeia: a Cultura do Vaso
Campaniforme, em finais do terceiro milênio.
Por outro lado,
na Ásia não houve uma Idade do Cobre com entidade suficiente, dada a sua curta
duração, pois o desenvolvimento da metalurgia em lugares como a Índia ou a
China começa realmente com o bronze.
Ver também: Idade
do Bronze
O bronze é o
resultado da liga de cobre e de estanho numa proporção variável (atualmente
acrescentam outros metais como o zinco ou o chumbo, criando os chamados bronzes
complexos). A quantidade de estanho podia variar de cerca de 3% até cerca de
25% (a maior quantidade de estanho, mais tenacidade, mas também menos
maleabilidade): na Pré-História a quantidade média costuma rondar 10% de
estanho. Supõe-se que foram os egípcios os primeiros a acrescentar estanho ao
cobre, ao observar que este lhe dava melhores qualidades, como a dureza, um
ponto mais baixo de fusão e a perdurabilidade (pois o estanho não se oxida
facilmente com o ar e é resistente à corrosão). Ademais o bronze é reciclável,
podendo ser fundido várias vezes. A técnica de trabalho do bronze é
virtualmente idêntica à do cobre.
O emprego do
bronze começou na Mesopotâmia,5 num momento que coincide, aproximadamente, com
o apogeu de outras grandes civilizações antigas como Síria, Canaã e o vale do
Nilo, e um pouco antes que surja o império Hitita em Anatólia, assim como as
culturas prehelênicas do mar Egeu. Os metalúrgicos destas áreas, para
satisfazer a demanda de cobre, estanho e metais preciosos, deveram de se tornar
também em exploradores e comerciantes à procura de minas e oferecendo os seus
produtos em troca das apreciadas matérias primas.5 Os sumérios e os seus
sucessores, por exemplo, careciam por completo de minerais metálicos e
suspeita-se que os importavam dos montes Zagros, onde surgira o império Elamita
e do Cáucaso (onde abundam a malaquita e a cassiterita), assim, há constâncias
de contatos sumérios desde o Afeganistão até a Europa oriental, já no terceiro
milênio.
Segundo milênio
a.C..
Os antigos
egípcios obtinham a maior parte do cobre das minas de Tina, em Arava, junto ao
deserto do Negev, embora ramificassem as suas relações comerciais com o Egeu e
a Europa (peças de procedência egípcia aparecem neste continente evidenciando
algum tipo de intercâmbio), assim como com algumas regiões africanas.
Os habitantes da
Síria, Palestina, Anatólia e do Egeu dirigiram as suas expedições para a
Europa, remontando o Danúbio à procura do estanho da Boêmia e da Hungria; ou
beirando o Mediterrâneo até o sul da península Ibérica, onde obtiveram o cobre
em El Argar. Com o tempo, remontaram pelo Atlântico até atingir as ilhas
Britânicas, à procura do cobre e do estanho da Cornualha e do ouro da Irlanda.
Assim, no segundo milênio a.C., a Europa entra na Idade do Bronze. O bronze
europeu caracteriza-se, a princípio, por uma grande variedade de culturas que
compartilham um substrato comum que inclui a construção túmulos funerários;
cabe salientar, na Europa central, a linhagem da cultura de Unetice—cultura dos
Túmulos—Cultura dos Campos de Urnas, que, apesar das evidentes diferenças,
parecem compartir certa continuidade cultural e racial. À parte convém
mencionar a cultura ibérica de El Argar e todas aquelas que se desenvolvem na
cornija atlântica, cuja idiossincrasia sobreviveu até épocas históricas.
Enquanto à Ásia,
ignora-se se a metalurgia do bronze foi inventada ali independentemente ou foi
uma importação da Mesopotâmia. No Paquistão, a Idade do Bronze nasceu com a
civilização do Vale do Indo (de meados de III milênio até meados do segundo
milênio a.C.), que carecia por completo de fontes de abastecimento mineral. De
fato, suspeita-se —pela escassez de objetos de bronze e cobre achados em
jazidas como Harappa ou Mohenjo-daro, e pelo atraso nas datas a respeito de
outros povos do oeste, os quais, apesar do seu alto grau de desenvolvimento,
dependiam dos seus contatos com os elamitas do oeste e, através deles, com os
mesopotâmicos. Assim parecem demonstrá-lo alguns objetos procedentes do Indo
encontrados na região de Diyala, no vale do Tigre, e várias tabuinhas escritas
de Larsa (datadas no 1950 a.C.6 ).
O processo pior
conhecido é o da China: é sabido que desde fins do quarto milênio a.C. fundiam
cobre arsenical, embora as peças sejam extremamente raras (de fato, não se
considera uma Idade do Cobre na China, mas se evoluiria diretamente do
Neolítico para o Bronze). Embora a metalurgia chegasse com vários milênios de
atraso ao extremo Oriente suspeita-se que pôde ser inventada independentemente
da do Próximo Oriente, pela originalidade das técnicas, às vezes muito
diferentes às dos povos do oeste. A primeira cultura da Idade do Bronze é a que
se denomina Erlitou, do II milênio a.C., relacionada à mítica dinastia Xia
(ainda que é muito discutível): as antigas lendas chinesas relatam que o
primeiro rei desta legendária dinastia, Yu o Grande (III milênio a.C.), foi um
grande fundidor de caldeiras trípodes cerimoniais de bronze, e agradavam tanto
aos deuses que lhe outorgaram a vitória sobre os seus inimigos. De qualquer
forma, embora Erlitou seja uma cultura sem escrita, implica a transição à
História deste país e, entre as suas criações, já aparecem os protótipos de
vasilhas cerimoniais de bronze usadas durante toda a antiguidade pelos chineses
(sobretudo os caldeiras circulares de três patas ou quadrados de quatro
patas).7
A Erlitou
sucede-lhe a época Shang (1600 a.C. - 1046 a.C.), durante a qual os chineses
puseram-se à altura de qualquer outra região na metalurgia do bronze.8 As
escavações de uma das capitais do reino, a cidade de Anyang, descobriram duas
grandes oficinas de fundição com fornos capazes de atingir temperaturas muito
superiores às necessárias, mas também com sistemas para controlar a intensidade
da calor. Assim elaboraram vasilhas rituais, machados, punhais, capacetes,
armas e armaduras de grande mestria. Muitas destas peças estavam destinadas às
túmulos reais dos seus cercanias, pois estas depararam numerosos objetos
cerimoniais de bronze de depurado feitio. As caldeiras li-ting e as vasilhas de
bebida com formas zoomorfas são as obras metalúrgicas mais originais da
antiguidade chinesa, atingindo o seu apogeu no final da época Shang, desde 1300
a.C. Os seus sucessores os Zhou continuaram a tradição dos copos rituais que,
durante muito tempo, acreditava-se que eram fabricados por meio da cera
perdida. Contudo, recentes pesquisas demonstraram que os chineses desconheciam
essa técnica, e que para as suas obras mestras usavam complicados moldes de
argila formados por várias partes tão bem ensambladas que não deixavam marcas
nas junturas (alguns de mais de dez peças). Não há duas obras iguais porque os
moldes eram quebrados para extrair os bronzes.9
Contudo, segundo
parece, os objetos de bronze chineses estavam reservados às elites, pois
encontraram-se poucas ferramentas e muitíssimas armas e objetos de culto. Esta
situação perdurou até a generalização do ferro.
O ferro é o
quarto elemento mais abundante na crosta terrestre,10 porém, o seu uso prático
começou 7000 anos mais tarde que o do cobre e 2500 anos depois do bronze. Este
atraso não é devido ao desconhecimento deste metal, pois os antigos conheciam o
ferro e consideravam-no mais valioso que qualquer outra joia, mas tratava-se de
"ferro meteórico", ou seja, procedente de meteoritos.
Embora durante
milênios não houvesse tecnologia para trabalhar minerais ferrosos, no terceiro
milênio a.C. parece que alguns o conseguiram: nas ruínas arqueológicas de Alaça
Hüyük, na Anatólia, apareceram várias peças de ferro artificial, entre elas um
alfinete, uma espécie de lâmina e uma adaga com a empunhadura de ouro. No
segundo milênio salienta um machado de combate descoberto em Ugarit e,
novamente, uma adaga com a lâmina de ferro e uma empunhadura de ouro, que fazia
parte do enxoval funerário do túmulo de Tutancâmon. As matérias primas destes
primeiros ferreiros deveram ser minerais como o hematita, limonite ou
magnetita, quase todos óxidos de ferro que já eram usados para outros fins na
Pré-História, por exemplo para ajudar a eliminar impurezas da fundição do cobre
ou como colorantes. De fato suspeita-se que nos fornos de fundição de cobre e
bronze puderam gerar-se pequenos resíduos de ferro quase puro, a partir dos
quais começaria o conhecimento da verdadeira siderurgia. Há antigos achados de
ferro fundido pelo homem da Síria ao Azerbaidjão. Contudo, nenhum revela como
foram obtidos nem as técnicas usadas. Não se conservam ruínas de oficinas, nem
ferrarias, pelo qual é ignorado de onde procedem estes objetos.
Por textos
escritos em tabuinhas cuneiformes é sabido que os Hititas foram os primeiros a
controlar e, até mesmo, monopolizar os produtos de ferro fabricados em meados
do segundo milênio. Enviavam os seus objetos aos egípcios, sírios, assírios,
fenícios… No entanto, a sua produção nunca foi abundante. De fato, muitos dos
envios eram presentes com finalidade diplomática, pois o ferro era dez vezes
mais valioso do que o ouro e quarenta vezes mais que a prata.11 Quando o
Império Hitita foi destruído pelos povos do mar, por volta de 1200 a.C., os
ferreiros dispersaram-se pelo Oriente Médio, difundindo a sua tecnologia: assim
começa a Idade do Ferro no Próximo Oriente.
Fabricar ferro
seguia um procedimento muito diferente ao do cobre e do bronze (o metal não se liquefacta),
primeiro porque era preciso conseguir fornos com grande capacidade calórica: o
mineral triturado devia estar totalmente rodeado de carvão de lenha (que era
consumida em enormes quantidades) e numerosos foles que, através de focais,
insuflavam oxigênio continuamente. O mineral devia ser pré-quentado num forno
e, por meio de golpes, parte das impurezas eram eliminadas; depois era levado
ao estado incandescente, num segundo forno, até obter uma massa denominada
ferro esponjoso, altamente impuro, pelo qual voltava a ser batido em quente
para o refinar. Após um longo e repetitivo processo de martelagem e
aquecimento, evitando que o ferro se esfriasse, obtinha-se uma barra forjadá,
bem pura, resistente e maleável. Para as armas e certas ferramentas, o ferro
era temperado esfriando-o bruscamente na água, o que provocava mudanças da
estrutura molecular e uma melhor absorção do carbono. Os testemunhos mais
antigos do processo de temperado do ferro candente foram encontrados no Chipre,
e datam de 1100 a.C.12 Evidentemente, as instalações e ferramentas dos
ferreiros eram muito diferentes às dos bronzistas. O bronze continuou sendo um
metal essencial para as antigas culturas, servindo em campos diferentes nos
quais não se podia ou não se sabia aplicar a tecnologia do ferro.
O ferro é mais
abundante que o cobre e que o estanho; uma vez dominada a técnica, mais barato
que o bronze. Quando os hititas desapareceram e os seus artesãos se
dispersaram, a produção deste metal aumentou consideravelmente em todo o
Próximo Oriente e os centros siderúrgicos estenderam-se até o Egeu, o Egito e
até mesmo a península Itálica por oeste; para a Síria e a Mesopotâmia por sul,
para a Armênia e o Cáucaso por norte, e para as grandes civilizações asiáticas
a leste .
Europa: a Idade
do Ferro europeia começa pouco antes de 800 a.C. e é protagonizada por povos,
na sua maioria belicosos, que habitavam povoados fortemente protegidos por
muralhas e outros sistemas defensivos. O ferro foi profusamente empregue para
ferramentas agrícolas e artesanais, aumentando a produtividade e o nível
cultural do continente. Os artesãos da idade do Ferro europeia conheciam o
ferro carburado: as placas de metal eram trabalhadas ao incandescente, mas sem
liquefazer, esquentando-as entre carvão de lenha para que absorvesse o carbono
depreendido na combustão. Também desenvolveram o laminado, alternando lâminas
superpostas de ferro com mais carbono, e que eram mais duras, com outras que
tinham menos, e eram mais maleáveis, até formar um feixe que era forjado a
cerca de 200°C, quando o metal adquiria uma cor amarela clara. O aquecimento e
martelagem contínua ia eliminando as impurezas e melhorando a qualidade do
metal até acabar por criar uma lâmina compacta e muito resistente, ao estar
composto de lâminas virtualmente soldadas, microscópicas e de qualidades
físicas complementares. Os europeus também souberam enfeitar ricamente as suas
joias metálicas e as suas armas, aprendendo a encaixar empunhaduras de madeira,
osso, marfim, e ainda incrustando vernizes ou finos fios de prata formando
complicadas filigranas.
Índia: a Idade do
Ferro começa na Índia na etapa neovédica (ou "vedismo tardio"), a
princípios do primeiro milênio antes da nossa era, fase na que se completa a
expansão ária pelo subcontinente. Apesar das convulsões, resulta ser paradoxal
que a metalurgia do ferro se manifestasse como um catalisador da agricultura,
que adquire toda a sua relevância a partir de 800 a.C. graças à aparição da
grade de arado e do machado de ferro, que permitiu ganhar à selva novos campos
de cultura e a expansão do arroz e da cana de açúcar (citada no Atarvaveda). A
plenitude da idade do Ferro coincide com os mahajanapadas (dezesseis reinos nos
quais se consolida o sistema de castas, 700 a.C.—300 a.C.), período no que é
possível que inventassem a soldadura autógena por forja e uma apreciadíssima
variante do aço chamada wootz da Índia. O wootz é um aço muito rico em carbono
e quase sem impurezas nem oxidantes. Os indianos comerciavam com lingotes deste
material desde o século V a.C., pois possuía qualidades portentosas, pelo qual
foi muito solicitado em todo o Índico.13 Adicionalmente, existe em Deli um
testemunho da habilidade metalúrgica dos indianos: o "Pilar de
Ferro", o único resto de um templo erigido durante a dinastia Gupta,
coluna feita de um ferro praticamente puro, 98% (quase poderia dizer-se que é
"ferro doze"), que resistiu a deterioração do tempo graças a uma fina
camada de óxido que a protegem.
China :14 A transição entre a idade do Bronze e a
Idade do ferro é muito longa na China, em parte devido à perícia dos bronzistas
chineses, e em parte devido à situação social do país. Os chineses conheciam o
ferro desde a dinastia Zhou. Em 1949 foram descobertas várias espadas zhou de
princípios do primeiro milênio a.C. nas quais foram usadas lâminas de ferro
meteórico. Pouco depois começou a ser empregue também ferro mineral. Contudo,
os metalúrgicos chineses usavam o ferro para o misturar com o bronze pelo
sistema do laminado e da soldadura autógena por forja para fabricar espadas
(frequentemente chamadas "bimetálicas" por essa combinação de bronze
e ferro). Adicionalmente, os ferreiros chineses descobriram que uma pátina de
óxido de cromo protegia o metal da corrosão.
Espada bimetálica
Jian da época dos Reinos Combatentes (século IV a.C.).
As armas mais
apreciadas eram as espadas, que eram forjadas e laminadas com ligas mais duras
no gume e maleáveis na veia central. As espadas de lâmina reta e duplo fio eram
chamadas Jian (próprias da nobreza guerreira, pois eram muito caras e difíceis
de manejar), e as de lâmina curva e gume simples eram denominadas dao (mais
baratas e versáteis, popularizaram-se entre os guerreiros menos dinheirosos). A
efetividade da liga outorgou às "espadas Jian" um enorme prestígio,
enquanto os "sabres dao" eram muito populares, pelo qual tardaram a
ser desbancados pelas armas de ferro.
Apesar de os
chineses tardarem em adaptar-se à mecânica da fabricação do ferro, quando a
aceitaram conseguiram avanços impensáveis. Por exemplo, foi constatado que no
século V a.C., não apenas começaram a ser habituais as armas de ferro (como a
espada jian descoberta em Ch'ang Xa), mas um dos muitos estados que se inscreve
no período das Primaveras e Outonos, chamado Wu (à beira do Yangzi) descobriu a
fundição do ferro: os artesãos de Wu construíram fornos que superavam os 1350
°C (ou seja, autênticos alto-fornos), nos quais o ferro era fundido até
liquefazer. Porém, o produto obtido, chamado gusa, tinha tal quantidade de
carbono (perto de 5% , por vezes, até mais), que resultava quebradiço demais
para ser útil, pelo qual depois era necessário descarburizá-lo; para isso era
submetido a altas temperaturas em fornos abertos que liberavam os gases em
forma de óxidos de carbono: assim era obtido um ferro fundido maleável e
funcional. A partir do século III a.C. a técnica foi difundida para norte de
modo que na etapa seguinte, a dos Reinos Combatentes, os objetos de ferro foram
comuns, e não somente se conhecem minas datadas nessa fase, senão em Hebei
apareceram numerosos túmulos de guerreiros com armas de ferro, umas forjado e
outras fundido, junto a peças ornamentais de bronze (o bronze seguiu sendo
preferido pela elite, especialmente para objetos cerimoniais como caldeiras ou
sinos rituais).
As armas e
ferramentas de ferro popularizaram-se no Primeiro Império Han (202 a.C. – 9
d.C.), de fato, o soberano apropriou-se do monopólio do ferro fundido,
construindo numerosos fornos na província de Henan. Os chineses também
aprenderam a misturar ferro fundido com ferro forjado para obter aço autêntico.
De fato, existia a lenda de que Liu Bang, o primeiro imperador da dinastia Han,
possuía uma espada de aço, de qualidades assombrosas, fabricada por este
sistema.15
Japão:16 Com a
chegada de invasores coreanos e chineses, a cultura neolítica do Japão, chamada
Jomon, desapareceu dando lugar à chamada cultura Yayoi. Isto ocorreu em torno
de 300 a.C., e veio acompanhado de numerosos progressos trazidos do continente,
entre eles os metais: o ferro chegou ao Japão ao mesmo tempo em que o bronze.
De fato, no Japão a fase Yayoi é também chamada "Idade do
Bronze-Ferro". A criação mais original da metalurgia jaioi são os sinos
rituais de bronze (chamadas "Dôkaku"), profusamente decorados com
motivos abstratos e até mesmo figurativos.
Na África17 não
há evidencias de existência nem do Calcolítico nem da Idade do Bronze em senso
estrito, embora por influência do Egito e outras culturas do Mediterrâneo
oriental, a costa norte pudesse conhecer o bronze no segundo milênio a.C., até
mesmo se suspeita que a cultura hispânica de El Argar pôde ter influenciado na
chegada da metalurgia do bronze à cordilheira do Atlas. Contudo, para sul, a
aculturação desvanece. Até mesmo a poderosa influência da cultura egípcia foi
limitada.
Os faraós
egípcios periodicamente dominaram a região de Canaã e do Sinai, embora diversas
potências rivais contendessem pela sua posse: primeiro os hititas, depois os
povos do Mar e finalmente os assírios. Adicionalmente, os governantes egípcios
dominaram temporalmente os territórios a sul da primeira catarata do Nilo. Este
domínio tem especial relevância o começar o primeiro milênio, pois induziu o
nascimento de um estado independente, o país de Cuche. Este reino, governado
por gentes de origem autóctone, foi deslocando-se para sul, à medida que a
pressão das potências mediterrâneas aumentava, assim, passou de ter a capital
em Kerma (3ª catarata do Nilo), a Napata (4ª catarata), desde a qual, durante
um tempo pôde dominar o Egito (dinastia XXV, séculos VIII e VII a.C.),
brevemente, pois os assírios conquistaram o delta; por último a capital foi
transladada a Meroé (entre a 5ª e a 6º catarata). Ao contrário do Egito
faraônico (que sempre careceu de matérias primas ou combustível suficiente),
Meroé desfrutou de uma importante indústria metalúrgica do ferro, desde antes
do século VI a.C., pois possuía produtivas jazidas metalíferas a norte e
abundante madeira a sul, de fato conservam-se montanhas de escórias daquela
época. Meroé sofreu um contínuo isolamento que obrigou a uma economia quase
autárquica, até a cidade ser destruída pelos nuba em 350 d.C.
Cartago, também
se associa à expansão do ferro pelo norte da África; e, embora tivesse relações
comerciais que se adentravam para o coração do continente, o seu interesse
nunca foi o domínio territorial, mas a aquisição de certas matérias primas e
escravos. Também não os romanos, após a conquista visaram adentrar-se no
deserto, pelo qual o resto da África caracterizar-se-ia por um desenvolvimento
cultural singular devido ao isolamento.
O ferro apareceu
na África subsaariana pela primeira vez na civilização de Nok, entre 500 a.C. e
200 d.C., e, dali difundiu-se para sul com a expansão bantu. Então não somente
se desenvolveu a metalurgia funcional do ferro, mas também a do bronze. A metalurgia
implicou um importante avanço produtivo que favoreceu a vida agrícola e o
aumento populacional. Embora em toda a metade meridional da África convivessem
agricultores, ganadeiros e caçadores-coletores. O aumento populacional é o
causador principal da expansão bantu para sul, devagar, até no primeiro século
da nossa já todo o continente conhecer os metais. O bronze não somente não se
abandonou senão, frequentemente, foi empregue com fins artísticos (como ocorre
por exemplo com os bronzes do Benim).
América[editar |
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Na América
desenvolveu-se a metalurgia do ouro, da prata, do cobre e do bronze; porém, em
nenhum caso, esta tecnologia incidiu decisivamente nas economias
pré-colombianas. As pepitas de cobre nativo eram conhecidas em várias regiões
da América, por exemplo na região dos Grandes Lagos, onde abundavam as jazidas
de cobre nativo, desde o quinto milênio a.C. os indígenas acostumavam a
batê-las até lhes dar forma de ponta de flecha, embora nunca chegassem a
descobrir a fusão. Por outro lado, mais a sul e muito mais tarde chegou a
desenvolver-se uma autêntica indústria metalúrgica em três grandes zonas
pré-colombianas, principalmente, os Andes, a Baixa Mesoamérica e a chamada Área
Intermédia, entre o Equador e a Colômbia.
Nos Andes, o
ponto de partida são as lâminas de ouro nativo associadas a martelos e bigornas
de pedra polida descobertos no departamento de Apurímac, concretamente em
Huayhuaca, datados em 1800 a.C. Contudo, a primeira grande cultura metalúrgica
do continente foi a Chavín de Huantar, que, desde, pelo menos e 800 a.C.
elaborava objetos de ouro em forma de placas marteladas e repuxadas. Até mesmo
chegou a unir várias placas para formar estatuetas de prancha de ouro.
Por volta do
século IV a.C., a civilização Moche incorporou a prata e o cobre já refinado a
partir da malaquita e outros carbonatos cupríferos; a metalurgia enriqueceu-se
notavelmente com novas técnicas, como o repuxado em quente. a incrustação de
gemas e, em especial o banho de prata e de ouro: o banho de prata consistia em
submergir um objeto de cobre numa solução de prata pulverizada e sais
corrosivos, o cobre reagia ionizando-se e absorvendo parte da prata,
posteriormente esquentava-se o objeto para melhorar a aderência e era polido. O
banho de ouro consistia em esquentar um objeto de cobre com pó de ouro até a
oxidação, esta implicava a absorção do pó de ouro, mas depois era preciso
retirar a camada externa, oxidada, por meio de ácido, para que o ouro saísse à
superfície, depois era polido também. Um exemplo das capacidades metalúrgicas
mochicas são as mais de 400 joias achadas no túmulo do Senhor de Sipán.
Tairona pendant
Louvre 70-2003-14-1.jpg
Não se conhece
com certeza quando e onde apareceu o bronze autêntico (liga de cobre e
estanho), mas parece que se iniciou nos Andes centrais, no vale do Lurín por
volta de 850 e que o seu uso se difundiu com uma extraordinária rapidez, de
modo que antes de 1000 já se desenvolvera a sua tecnologia em toda a
cordilheira, do atual Chile até a Colômbia. Dali, por via marítima ligou com a
costa ocidental do México, onde abundam as minas metalíferas.
A chamada Zona
Intermédia também tem uma antiga tradição no trabalho dos metais, quase tão
antiga quanto a dos Andes. De fato, ali ficam os maiores expertos em ligas metálicas
da América pré-colombiana: os muiscas. Estes ameríndios misturavam prata, ouro
e cobre em diversas proporções, mas a liga mais bem-sucedida foi chamada
tumbaga (de cobre e ouro, que acrescenta a resistência das joias, sem perderem
a aparência áurea: os muiscas, habitantes da atual Colômbia e Equador são
também os inventores da cera perdida, no século I.
Fundidor avivando
o fogo enquanto retira impurezas
(Códice de
Medoza).
De entre todas as
culturas pré-colombianas da Baixa Mesoamérica,18 destacam-se os mixtecos, que
se suspeita que já existiam no período pré-clássico mesoamericano. Os mixtecos,
além de conhecedores das técnicas supracitadas, foram inventores de outras como
a soldadura, a filigrana, o damasquinado, etc…, enfim que a sua ourivesaria era
equiparável à do Velho Mundo.19 Os mixtecos também eram expertos na fundição do
cobre e conheciam o bronze. Numerosos códices ilustram as técnicas de fundição
e redução destes metais.
Contudo, apesar
de serem consumados metalúrgicos, os povos pré-colombianos unicamente
elaboraram objetos de culto e suntuários de prata e, sobretudo, ouro. Até mesmo
as maças de guerra, que se fabricavam tanto em pedra como em bronze eram,
frequentemente, de prestígio. As facas também costumavam ser cerimoniais, a
tecnologia destas joias apenas estava ao alcance das elites. A metalurgia não
alcançou a importância econômica e social do Velho Mundo e embora fabricassem
machados, enxadas, maças, lanças e outros objetos de bronze, eram raros e não
melhoraram sensivelmente a produtividade da maioria da sociedade nem a
efetividade bélica dos seus exércitos.
Os americanos
conheceram outros metais, por exemplo a platina e o ferro.
A platina foi
usada em mistura com ouro: embora nunca conseguissem uma autêntica liga destes
metais dado o alto ponto de fusão da platina. O composto (ouro branco) era
obtido martelando o ouro com pós de platina (frequentemente em quente), até
conseguir uma massa uniforme à qual se podia dar a forma e ornamentação
desejada.
O ferro somente
era conhecido através de meteoritos e era usado em forma de esquírolas, como se
fossem lascas, por parte dos indígenas da América do Norte. Embora o exemplo
mais interessante seja a exploração do meteorito mexicano chamado
"Descubridora" (em Charcas, San Luis Potosí), que ainda conserva um
pedaço de punção pré-colombiano de cobre cravado. Outro uso comum do ferro
pré-colombiano é como corante de cerâmica, uma vez pulverizado e acrescentado
antes do cozimento.
A conquista
espanhola da América explica-se em boa medida (embora não única, nem
principalmente) pela diferença tecnológica que situa à maior parte dos povos
pré-colombianos em estádios tecnológicos iniciais da idade dos metais: quase
nenhum deles dominava a metalurgia do bronze e nenhum a do ferro. A efeitos
materiais as suas ferramentas mantinham-se na Idade da Pedra, ainda que, do
ponto de vista cultural (e não somente porque algumas culturas já tinham
registros escritos), desenvolveram estruturas sociais e políticas tão complexas
e evoluídas que se acredita que já entraram na História.